TAC completa 10 anos

Em 2019, a TAC (Terapia Assistida por Cães), completa 10 anos de atuação em projetos que utilizam cães como recurso terapêutico dentro de hospitais públicos, chegando à média de 3.500 pessoas atendidas ao longo desse período. 

O nascimento da ONG foi no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP (IPq), à convite do Dr. Estevão Vadasz, para atuar dentro do Programa Especializado em Transtorno do Espectro Autista (PROTEA). O atendimento com os cães era realizado na sala de espera do ambulatório, com o intuito de reduzir a ansiedade das crianças que estavam aguardando a consulta com o psiquiatra. “Ficamos durante quase 2 anos fazendo essa atividade e, como surtiu um efeito muito bom nos pacientes, começamos a realizar ações bem específicas com os que participavam frequentemente, trabalhando, por exemplo, a questão do medo de cães, medos mais patológicos, fobias, etc. E as equipes do hospital, vendo esse resultado, nos convidaram para atuar também no Hospital Dia Infantil e enfermaria”, conta Vinicius Fava Ribeiro, Coordenador e Diretor da TAC.

Nessa nova etapa, foram iniciados os atendimentos individuais na brinquedoteca, em conjunto com a Dra. Marisol Sendim, pediatra e psicanalista. Enquanto na enfermaria, as pedagogas Andréa Petenucci e Laura Cavalcanti desenvolviam o projeto de Educação Assistida por Cães, realizando atendimentos psicopedagógicos para dar suporte educacional às crianças, possibilitando que se mantivessem ativas para adquirirem novos conhecimentos durante o período de internação.

Com a repercussão dos benefícios alcançados e o sucesso dos cães nos corredores do hospital, surgiram ainda os convites para a implantação da TAC nas enfermarias da Geriatria e de Comportamentos Alimentares, e na Unidade de Cuidados Paliativos do HCFMUSP, onde pela primeira vez o atendimento passou a ser desenvolvido também para a equipe profissional. 

“A TAC começou um pouco fora da curva em relação a como eram feitas as intervenções aqui no Brasil há 10 anos. Iniciamos pensando na profissionalização da equipe humana mas também no preparo dos cães, para terem um perfil de trabalho frequente, recebendo adestramento e acompanhamento de alto rendimento. A ONG foi crescendo e amadurecendo, primeiro dentro do próprio hospital, não ficando exclusiva a uma determinada área. Conseguimos ser muito flexíveis na utilização dos cães, ultrapassando as intervenções voltadas apenas para os pacientes, mas chegando também na equipe médica. Acho que isso não é somente um amadurecimento, mas uma ação revolucionária dentro das ONGs”, explica Andréa Petenucci, pedagoga e Presidente da TAC.

Segundo Vinícius, o propósito da TAC é potencializar os benefícios da interação entre os cães e as pessoas, dentro do contexto terapêutico e tentar levar isso ao máximo de pessoas. “Teve uma época que a gente fazia um trabalho de dessensibilização para autistas em relação aos cães, principalmente com os que tinham medo. E as mães traziam relatos de como isso facilitou a vida delas, por exemplo, para andar na rua. Antes elas tinham medo de um cachorro aparecer no portão e a criança sair correndo com o risco de ser atropelada. E com essa atividade, a criança começou a entender que tem cães que são bravos e outros que não são, e que ela não precisa sair correndo para todos eles. Isso ajudou muito a vida dessas mães, pois passou a ser uma preocupação a menos”.

Para Andréia, que participou durante 9 anos das intervenções na TAC, levar os cães para o hospital sempre teve um propósito muito definido. “Os estagiários chegavam achando que iam ter um contato muito diretivo, ‘eu vou lá para hospital levar os cachorrinhos para ver os pacientes’, e depois percebiam que essa vivência era completamente diferente. A gente buscava resultados. Pioneiramente, a TAC vai sempre te conduzir para outros lugares dentro das intervenções, que de maneira geral os outros grupos não vão. A TAC tem que continuar porque é pioneira na atividade”.

A pedagoga também conta sua experiência mais marcante dentro da ONG: “Foi com a Zoah (cão co-terapeuta) e uma menina que estava internada na enfermaria pediátrica. Não me lembro o quadro, mas ela tinha crises de choro e desespero bem fortes. Nesse dia, mal abrimos a porta e ela disse ‘graças a Deus vocês chegaram’. Abraçou muito forte a Zoah, praticamente a esmagou, e chorou bastante. Era uma paciente sempre bem vinculada com a Zoah, só que isso foi uma experiência negativa para a cachorra. Eu digo que esse abraço foi tão apertado quanto o desespero que a menina estava sentindo. Ficava evidente que ela estava desesperada e transpassou isso na força do abraço. Só que durante o atendimento, a Zoah começou a evitá-la, porque não queria ser amassada de novo. Fiquei muito preocupada, pensando que isso pudesse ficar marcado a ponto da cachorra generalizar essa atitude com as outras crianças ou num futuro ter uma situação semelhante e ela demonstrar o incômodo. Fui pra casa e pedi orientação da adestradora. Eu não sabia se a mesma menina estaria lá na próxima semana, mas mesmo assim preparamos a situação. A adestradora me falou para refazer toda a ligação entre duas, e explicou como conduzir novamente essa interação. Na semana seguinte, quando chegamos, a menina vem lá do fundo do corredor aos prantos. Eu pensei que não iria conseguir fazer novamente o vínculo porque a Zoah ia fugir dela. Mas, para minha surpresa, a Zoah olhou pra mim, abaixou o rabo, foi até a menina e se colocou paradinha, esperando o abraço. Os cães têm essa percepção da necessidade do humano. A gente sabe pela ciência que é bioquímica, pelo faro, mas eu acho que vai além disso. Existe um vínculo muito forte entre homem e animal. A Zoah se colocou e eu não precisei fazer nada, porque ela já tinha entendido que de vez em quando a menina ia dar umas espremidas, mas que tudo bem, porque ela estava precisando”.

A equipe também relembra o caso de uma paciente da Geriatria que estava com o diagnóstico de Alzheimer fechado. “Na primeira intervenção que essa senhora participou com a gente, a psicóloga do hospital, que estava acompanhando a atividade, conseguiu perceber que não era Alzheimer. Era um embotamento por questões emocionais dessa idosa, que não queria entrar em contato com as memórias. Isso ficou muito claro no nosso atendimento, porque ela teve um desempenho excelente. E então ela teve o diagnóstico alterado a partir de uma intervenção nossa”.

Os atendimentos da TAC aos pacientes e à equipe médica do hospital duram geralmente 1 hora por semana, mas, por acontecerem em momentos de fragilidade muito grande, podem ser decisivos. Vinícius conta que é possível perceber o impacto de um espaço como esse para as pessoas. “Às vezes, um encontro de uma hora pode mudar uma história na vida dela e fazer a diferença. E isso não tem preço. Passei a entender que a gente pode ter um legado e é isso que me faz continuar”.

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